quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Abominável Relato de Quem Já Não Existe Mais

I

Era uma terrível tempestade, numa noite escura e sem estrelas. Uma tempestade como jamais havia visto. A embarcação chacoalhava a todo instante pra lá e pra cá com as imensas ondas negras daquele mar abominável e cuja ira tentava a todo custo destruir todas as nossas esperanças e nossas vidas. Aquela chuva torrencial, aquela ventania rugindo como um furacão, os incessantes trovões assustadores, os gritos desesperados, suplicando por uma mão salvadora, por uma luz no meio da escuridão eterna. Eis o próprio inferno em alto-mar.

Quando uma enorme onda gelada vinha em nossa direção, com o único propósito de engolir à embarcação e a todos nos, a terrível sensação de catástrofe iminente fez com que eu, completamente atordoado, sem pensar e com todas as minhas forças, talvez pelo instinto humano de sobrevivência, de escapar daquela horrenda onda monstruosa, corresse para o convés, e saltasse em alto-mar, deixando tudo e todos para trás.

E assim, em um instante, lá estava eu, com meu corpo, submerso nas profundezas daquele infinito mundo líquido e escuro, desconhecido, gelado e aterrador. Sem conseguir respirar, tentei em vão voltar à superfície, me debatendo incontrolavelmente debaixo daquelas águas, em total desespero. Queria pedir ajuda, queria que aparecesse alguém e me tirasse daquela cova marítma, suplicava mentalmente por um milagre divino, já que na minha situação, eu havia sido privado de minha habilidade de proferir sons pela boca e de sequer abrir os olhos, e só o que me restava, ou pelo menos a única coisa que eu ainda possuia um certo controle, era minha própria mente.

II

Pouco a pouco, comecei algo como estrelas e fogos de artifício. Obviamente efeito da falta de oxigênio. Me sentia cada vez mais fraco. Em um instante estava me sentindo completamente em paz. Simplesmente, naquele momento, havia desistido definitivamente de lutar. Ninguém sabia do naufrágio. Ninguém me encontraria no meio daquela tempestade. Ninguém me tiraria daquelas profundezas, pelo menos não com vida. Desisti de minha vida, simples assim. Relaxei meu corpo completamente e o entreguei àquele líquido escuro e maldito.

Totalmente anestesiado, numa serenidade eterna, como se estivesse adormecendo, estou preparado para partir. Meu corpo ficará para todo o sempre neste túmulo marítmo, enquanto minha alma... minha alma está livre. Estou livre, finalmente livre, pensei com o pingo de consciência que ainda me restava. Finalmente, me libertava de meu corpo, o sentia cada vez menos, meus sentidos estavam pouco a pouco diminuindo. Já não ouvia nada, era o mais puro silêncio que seja possível imaginar, já não sentia o frio congelando meu sangue, por alguns instantes a água era tépida, esquentou mais, e então senti como se estivesse em um delicioso banho quente. Não sentia sequer a água infinita ao meu redor, era como se flutuasse num vácuo eterno. Sem fazer nenhum esfoço senti meu corpo subindo, subindo devagar pelas águas, deslizando verticalmente rumo à superfície. Era uma sensação fantástica, incrível, tive a impressão louca de estar renascendo das profundezas. E a partir daquele momento, eu já não era nada. Eu era tudo. Ou isso era o que eu pensava, ou pelo menos era o que eu esperava.

III

Foi então que, imediatamente, todos os meus sentidos desabaram por sobre mim mais uma vez no momento em que algo que não pude ver me agarrou sem cerimônia pelas pernas, me puxando, me sugando numa velocidade infinita para as profundezas abissais daquele mar. E senti todo o desespero tomar conta de mim novamente, aparentemente lá estava eu, denovo dentro de meu corpo decadente, senti o peso, a pressão imensa da água, senti que minha cabeça iria explodir, me debatia como um louco, tentava inutilmente gritar, mas ao invés de emitir qualquer som de minha boca, litros e litros daquela abominável água salgada invadia meus pulmões com toda força e sem piedade. Abri os olhos em total pânico mas não enxerguei absolutamente nada, tudo isso enquanto a "coisa", ou seja lá o que fosse, me puxava sem parar para as profundezas, e senti-me afundando tão rápido, mas tão rápido, como se estivesse em queda-livre, numa velocidade extrema. Novamente abandonei as esperanças e minha vida, pois ao que tudo indicava, já não mais me considerava vivo. A uma distância tão profunda e naquela completa e gelada escuridão aquática sem fim eu era algo totalmente insignificante, eu não era um nada. Em poucos instantes, fui perdendo totalmente a consciência até que de mim nada restou. Absolutamente, nada.

IV

Eis que deixei de existir. Pois o que sou eu, senão a minha própria consciência?
Como este abominável relato veio chegar até você, desconheço.